4 de junho de 2018

Muito se fala em Management 3.0, equipes autônomas e auto-gestão... mas, onde isso está sendo feito, de fato? Ou é apenas conversa para vender livros, palestras, workshops e impulsionar redes sociais? É possível ?

Bem, falo por mim, ou melhor, pela Elotech. Essa empresa foi meu primeiro emprego, recém saído do curso de Processamento de Dados da UEM, em 1987. Nessa época, o mundo ainda era dividido em Capitalistas x Comunistas, eram duas as Alemanhas, estávamos vivendo o recomeço de nossa democracia, mas, na nossa área, ainda vivíamos sob a malfadada Lei de Informática de 1984, que estabelecia uma reserva de mercado para empresas brasileiras. Por aí, já imagine a qualidade dos computadores que nós tínhamos...

É impossível dizer qual era a moeda, porque em pouco tempo a inflação engolia o dinheiro, e o governo cortava tantos zeros quantos necessários e lançava uma nova moeda.

Foi nesse ambiente que estabeleci minha experiência profissional, e quando a economia se estabilizou, o fundador da Elotech me fez seu sócio. Seu nome era Euclides, ou Kido, um cara tão brilhante quanto generoso. E, dois anos depois, ele faleceu e tivemos que refazer a sociedade.

Programador por escolha e vocação, nunca fui de gerenciar pessoas, com tabelas, metas e resultados. Ou faz e faz bem feito, ou não faz e procura outro lugar para trabalhar. Simples assim. Enquanto a Elotech tinha até umas 40 pessoas, dava para levar assim, mas e quando esse número começa crescer mais rápido do que você consegue contar? Como fazer tanta gente manter o foco, melhorar resultados e remar para o mesmo lado?

Nosso instinto nos levou a seguir o que dizem os manuais de administração: estabeleça uma organograma taylorista, crie níveis de poder e um gerente para cada área. Foi o que fizemos, durante uns 15 anos, talvez mais.

E nossa conclusão, a despeito do crescimento vertiginoso da empresa, é que, independente da qualidade dos gerentes que você colocar ali, não compensa o custo de ter tanta gente gerenciando gente inteligente e crescida demais. Hora de mudar.

O primeiro passo foi instituir dois programas, um para desenvolver os líderes existentes, e outro para descobrir e desenvolver, entre o pessoal do nível operacional, líderes em potencial. No entanto, um fato nunca mudava: estávamos gerenciando gente que não precisa ser gerenciada. Alguém dirá: "Mas... há aquelas que precisam ser gerenciadas! Sempre há!". Sim, vamos a elas.

Nesses últimos 5 anos, estudamos muito, todos nós: diretores, líderes e ascendentes a líderes. E, nessas leituras, descobrimos algumas coisas interessantes, com autores como Jim Collins, Ram Charam, Peter Drucker, CYnthia Montgomery, Niels Pflaeging (Beyond Budgeting RT) e outros.

A primeira: se você gasta algum tempo tendo que gerenciar alguém, provavelmente cometeu um erro de contratação. Esse tipo de profissional, que chamam de "a pessoa errada", causa muito mais problemas e desperdício do que imaginamos. Você deve dispensá-lo rapidamente, para o bem de todos, inclusive e principalmente dele. Procure contratar as pessoas certas; na dúvida, continue procurando.

Outra lição, igualmente importante, é colocar as pessoas certas no lugar certo, colocar os melhores profissionais nas suas melhores oportunidades, e não em seus maiores problemas. As pessoas certas não precisam ser motivadas, elas são auto-motivadas; antes, cuide de não desmotivá-las, ou as perderá.

À medida que fomos cumprindo as tarefas acima, começamos a testar algumas equipes compostas, em sua maioria, de pessoas certas. Sem gestores, sem líderes, com mais responsabilidades e mais poderes.

O resultado foi surpreendente e animador, o que nos levou a ousar e levar a experiência para outras equipes. Para nenhuma reunião improdutiva fui chamado por eles, nenhum prazo foi estourado e o produto apresentou-se muito melhor que a previsão inicial, em inovação e recursos.

Aos poucos, fomos levando a experiência para outras áreas, e mais outras e algumas outras. Alguns tropeços, algum retrocesso em determinado momento, mas nos mantivemos firmes no propósito.

Hoje, vivemos um dos melhores momentos de nossos 30 e poucos anos: elevados níveis de lucratividade, clientes satisfeitos, excelente clima organizacional, uma das melhores empresas para trabalhar (segundo o ranking GPTW TI 2017), certificação CMMI nível 3, diversos projetos de inovação, produtividade elevada e subindo...

A receita? Nenhum diretor, nenhum gerente, nenhum chefe! Somos uma grande equipe de +120 pessoas, dividida em várias equipes menores, com toda responsabilidade e poder sobre como atingir os objetivos determinados, podendo contratar e demitir membros da própria equipe.

Transparência total, incluindo informações financeiras, tudo disponível através de indicadores e dashboards acessíveis pelas TVs fixadas na parede, ou pela intranet da Elotech.

A única exigência é subir a régua frequentemente, sermos cada vez mais exigentes, cada vez melhores.

Sobre as perguntas do primeiro parágrafo, eis a resposta: sim, nós podemos. Nós já fazemos, e estamos muito satisfeitos com isso.

Por Marco Aurélio Castaldo Andrade
Diretor Financeiro da Elotech Gestão Pública

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